27 de junho de 2011

A pop acompanhada pelo ukulele


Eddie Vedder ficou espantado com aquilo que o ukulele conseguia fazer. Estávamos no final da década de 1990 e Vedder encontrava-se no Havai, a descomprimir depois de uma digressão com a sua banda, os Pearl Jam, quando um desses instrumentos modestos, de quatro cordas, captou a sua atenção num pequeno mercado de um local remoto. Comprou-o, sentou-se num caixote de cervejas que estava perto e tocou algumas melodias. Soou--lhe bem.

"E então, chegou um casal de turistas e atirou-me uma moeda de 50 cêntimos para o estojo do ukulele", recorda. "E eu pensei ''Uau, está a passar-se aqui qualquer coisa.''"

O novo álbum a solo de Vedder "Ukulele Songs" será editado a 31 de Maio. Mas nos anos que passaram desde a sua primeira serenata num caixote de cervejas, a sorte do ukulele mudou. Não há muito tempo era uma espécie em risco de extinção, habitualmente considerado como um objecto exótico barato ou um adereço cómico. Hoje difunde-se na cultura com uma extensão que não conhecia há mais de meio século, surgindo em canções pop e de bandas de rock independente da moda, em centenas de anúncios televisivos e em milhares de vídeos no YouTube. Está definitivamente a passar-se aqui qualquer coisa.

A tendência, construída durante uma década e a atingir agora um ponto de saturação, está a ser alimentada por uma mistura de realizadores de Hollywood, publicitários de grandes empresas, músicos profissionais em busca de um som novo e amadores que descobriram como é fácil tocar o "uke". Os seus objectivos podem ser totalmente diferentes - vender desodorizantes e carros versus arranhar o instrumento num bar de Brooklyn - mas eles estão unidos no reconhecimento de que o ukulele oferece um tipo de humildade musical, genuína e simples, que é difícil de encontrar numa época dominada pelo "American Idol" e pelo "Guitar Hero".

Menos corda, mais melodia "Ele simboliza tudo aquilo que a imponente e bem sucedida máquina da indústria musical não é", diz Amanda Palmer, uma cantora que fez parte do grupo de punk-cabaret Dresden Dolls.

Há alguns anos, em jeito de piada isolada num concerto, Palmer dedilhou um uke ao mesmo tempo que cantava "Creep" dos Radiohead, acompanhada de um modelo do instrumento de 19 dólares (13 euros) que comprara no dia anterior. Mas a actuação revelou-se tão tremendamente intensa que não podia continuar como uma brincadeira. Como tal, ela começou a levar um ukulele para todo o lado e, não muito tempo depois, gravou um álbum completo: "Amanda Palmer Performs the Popular Hits of Radiohead on Her Magical Ukulele", editado em 2010.

O facto de Palmer ter adquirido os fundamentos básicos num dia - o seu instrumento habitual é o piano - revela uma das grandes vantagens do ukulele: é tão fácil de aprender que se diz que é quase impossível tocá-lo mal.

"Ninguém pega no ukulele para depois voltar atrás e corrigir a sua voz", explica Stephin Merritt, dos Magnetic Fields, cujo triplo álbum de 1999, "69 Love Songs", incluiu bastantes partes de ukulele e foi um dos marcos do seu renascimento. "Ele soa completamente não treinado e portanto fica bem com estilos de voz não treinados." Vedder tem um resumo simples das suas vantagens: "Menos cordas, mais melodia."

A loucura do ukulele da década de 2000 é apenas a mais recente da sua longa história. O ukulele, um descendente de um instrumento de quatro cordas chamado machete (semelhante ao cavaquinho) que os trabalhadores portugueses introduziram no Havai no século XIX, teve a sua primeira divulgação nos EUA em 1915, na Exposição Internacional Panamá-Pacífico de São Francisco. Em 1968, quando "Tip-Toe Thru'' the Tulips With Me" de Tiny Tim se tornou um êxito surpreendente (17.o lugar nos tops) - e condenou o instrumento ao estatuto de piada durante vários anos -, estava a perder fulgor.

A sua jornada de regresso do esquecimento começou em meados da década de 1990, liderada por um revivalismo entre os músicos no Havai, e desde então tem seguido caminho paralelos na cultura independente e empresarial. Em 1999, uma versão simples e melancólica de "Over the Rainbow", interpretada por Israel Kamakawiwo`ole, foi utilizada num anúncio da eToys e desencadeou um frenesim de anúncios com ukulele. A gravação foi licenciada mais de 100 vezes para vender comida, software, tinta, serviços bancários, bilhetes de lotaria e muitas outras coisas.

Não é difícil entender o fascínio. O dedilhar leve e despreocupado que se tornou o estereótipo sónico do instrumento invoca inocência, sinceridade e espanto infantil, assim como nostalgia de uma época pré-rock''n''roll. Também não prejudica que o som se ajuste igualmente às ideias pré-concebidas do Havai como um paraíso terrestre do consumo.

"Toda a gente está a colocar o som tilintante do ukulele como pano de fundo do seu anúncio", conta Jim Beloff, que escreveu "The Ukulele: A Visual History". "É uma abreviatura de leveza de tom. Afirma ''Nós na realidade somos bons tipos.''"

Ao mesmo tempo que Hollywood e a América empresarial começaram a virar-se para o ukulele, surgiu uma onda de revivalismo das raízes do instrumento. Apareceram sociedades locais à volta do país, ajudadas pela Internet. E, seguindo as pisadas dos Magnetic Fields, o instrumento começou a despontar no mundo do indie-rock: Mirah, Beirut, Dent May, Noah and the Whale, Buke and Gass, Tune-Tards, até uma banda de tributo dos Neutral Milk Hotel chamada Neutral Uke Hotel. Daqui, espalhou-se para o mainstream.

O ukulele está por toda a canção de 2009 dos Train "Hey, Soul Sister", por exemplo, que atingiu o número 3, ganhou um Grammy e foi incluída em "Glee". (E não esqueçamos o factor Beatles: Paul McCartney prestou tributo a George Harrison, amante do ukulele, em 2002 no "Concert for George"; quatro anos depois, a interpretação virtuosa de Jake Shimabukuro de "While My Guitar Gently Weeps" tornou-se um sucesso no YouTube.)

Na opinião de Palmer, o ukulele é o instrumento zeitgeist para a idade do Faça Você Mesmo. "Estamos na idade da democratização da música", diz. "Qualquer um pode ser músico. E numa recessão, quando temos um instrumento que custa 15 euros e existe um grande renascimento musica, toda a gente quer juntar-se."

Entretanto, as vendas do instrumento aumentaram. Sammy Ash, director executivo das lojas de música Sam Ash, diz que vendeu mais ukuleles em Dezembro passado do que em toda a década anterior, juntamente com montanhas de acessórios. "Vendemos um livro dos Metallica em ukulele", conta Ash, "e vendemos uma grande quantidade deles."

Talvez os dotes de tocar Metallica em ukulele possam ser vistos na New York Uke Fest, de 5 a 7 de Maio, com concertos e workshops que incluem técnica de guitarra slide e fabrico do lei, o colar tradicional do Havai (nyukefest.com).

Deprimido como Vedder Durante grande parte da sua história, o ukulele foi definido pelas suas limitações: não tem a ressonância de uma guitarra, o som agudo do banjo e um dos resultados é um alcance limitado em termos de estilos de interpretação. De alguma forma, é essa a força do ukulele, um dedilhar simples e eficaz que qualquer um pode aprender. Mas - fora as fantásticas prestações de mestres como Shimabukuro - é mesmo só isso?

O álbum de Vedder fica a meio caminho entre o estilo padrão do ukelele e algo mais idiossincrático. Respeitando uma das leis não escritas do instrumento, Vedder toca canções antigas como "Dream a Little Dream of Me" e "Tonight You Belong to Me" (talvez se recorde de Steve Martin e Bernadette Peters a cantarem esta última em "O Tonto"). E explora o sentimentalismo total do instrumento, cantando versos como "For every wish upon a star that goes unanswered in the dark/There is a dream I''ve dreamt about you." Porém, em canções como "Can''t Keep", ele parece tentar comprimir um angustiado tema dos Pearl Jam no pequeno instrumento, atacando as cordas.

Merrill Garbus, da banda Tune-Yards, cujo segundo álbum, "Whokill" está prestes a ser lançado, é mais experimental. Garbus cria loops de som utilizando a bateria, o ukulele e a sua própria voz, tecendo os elementos por cima de beats de reggae e melodias vocais de influência africana.

Terá desculpa se não ouvir o ukulele na primeira audição. Através de várias manipulações electrónicas, ela fez com que soasse como um sintetizador, ou uma guitarra eléctrica com distorção ou, simplesmente, pequenas explosões de ruído. Mas ouça com atenção e ouvirá o tinir do ukulele.

"O meu objectivo foi, absolutamente, fazer com que o ukulele não soasse como o ukulele", diz Garbus. "Amplifico o ukulele através de um pick-up e depois ligo-o a um óptimo amplificador a válvulas, para que a textura não se assemelhe ao som típico do ukulele. É um processo um bocado intricado."

Ou, como Vedder explica: "A minha inspiração era lutar com a coisa, dar-lhe algo de diferente em relação à maneira como era tocado. Posso tornar este pequeno e feliz instrumento tão deprimido quanto eu?"

(Fonte: http://www.ionline.pt/conteudo/119118-a-pop-acompanhada-pelo-ukulele)

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